Número de abertura de BRASÍLIA: O conceito de literatura brasileira

2018-10-22

Título de um breve livro de Afrânio Coutinho, de 1960, o entendimento do «conceito de literatura brasileira» permanece pleno de consequências para a história e a crítica da literatura brasileira. Recorde-se que nesse livro, Coutinho atacava sobretudo as posições de Antonio Candido na Formação da Literatura Brasileira, pondo em causa a facilidade com que este «alijava» toda a literatura do período colonial, como se ela não fosse relevante para o seu conceito de literatura brasileira. Não aceitando a periodização tradicional que qualifica essa literatura como «colonial», Coutinho revindicava contudo o direito a anexá-la, por inteiro, para uma História da Literatura Brasileira, que sem esses primórdios ficaria mais pobre. O argumento conjuga o formalismo – não há literatura «colonial» mas sim «barroca», por exemplo – com o nacionalismo, que Coutinho manifesta ter dificuldade em reconhecer em Candido. Este, por seu turno, parece mais preocupado em reconhecer um «sistema literário» a operar já adulto no Brasil do que em reivindicar origens ou primícias - «manifestações literárias» - cujo único mérito seria o de exprimirem uma nacionalidade proto-brasileira. Mas a forma como relega para o exterior do seu construto a relação com a literatura portuguesa (ao contrário de Coutinho, que faz dessa relação o seu drama teórico e político), evidencia a que ponto a Formação da Literatura Brasileirase insere ainda numa lógica de afirmação nacional.

Entre as várias versões do nacionalismo literário brasileiro e a possibilidade de uma perspectiva cosmopolita, trata-se de saber, no limite, se necessitamos mesmo de um conceito de literatura brasileirae o que se joga na hipertrofia (teórica e política) dessa necessidade.

Data de edição do vol. 1.1.: 1º semestre de 2019

Editor do número: Osvaldo Manuel Silvestre