O DECORO DE UMA PROSTITUTA

  • Eliane Robert Moraes Universidade de São Paulo

Resumo

Entre as mudanças que abalaram a paisagem sensível europeia no final do século XIX, uma das mais inquietantes diz respeito à fabulação literária sobre a prostituta. O imaginário em torno do amor venal se modificou em paralelo ao gosto de um público cada vez menos identificado com as virtudes das heroínas românticas. No Segundo Império, a capital francesa viu surgir um novo tipo de oferta sexual que atendia as demandas do apetite burguês para o consumo e o prazer: circulando à vontade pelas ruas parisienses, a prostituta moderna era reconhecida, antes de tudo, por sua espetacular teatralidade. Tais transformações repercutiram na literatura brasileira de modo particular. Afinal, no final de Oitocentos, o país estava longe de partilhar a sociabilidade que dava base a essas mudanças na França, e os velhos valores patriarcais, católicos e escravocratas resistiam às equações mais modernas entre forma literária, erotismo e moralidade. É a partir desse quadro que se interpreta o conto “Singular ocorrência” (1883) de Machado de Assis, talvez o primeiro texto brasileiro a demarcar uma mudança no modo de representar a personagem. Na história supostamente banal do relacionamento entre um homem poderoso e uma “Maria de tal”, interroga-se a performance da protagonista, cuja “discreta teatralidade” faz eco aos atributos das cortesãs europeias.

Palavras-chave

Machado de Assis, “Singular ocorrência”, prostituta, moralidade, teatralidade, performance

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Publicado
2017-12-27
Como Citar
MORAES, Eliane Robert. O DECORO DE UMA PROSTITUTA. Revista de Estudos Literários, [S.l.], v. 6, p. 287-307, dez. 2017. ISSN 2183-847X. Disponível em: <http://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/4891>. Acesso em: 26 abr. 2018.