Da eudaimonia individual ao florescimento social. Perspectivas sobre a felicidade na obra de Martha Nussbaum

Autores

  • Marco Ferreira Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
  • Marta Faustino IFILNOVA / Universidade NOVA de Lisboa

DOI:

https://doi.org/10.14195/1984-249X_35_28

Palavras-chave:

Martha Nussbaum, Florescimento humano, Felicidade, Filosofia helenística, Abordagem das capacidades

Resumo

Martha Nussbaum é uma das principais referências para o debate contemporâneo sobre a felicidade e o bem-estar humanos. Neste contexto, a obra de Nussbaum distingue-se, por um lado, pela sua interpretação e análise da filosofia antiga como uma terapia da alma vocacionada para o alcance da eudaimonia, e, por outro lado, pelo seu desenvolvimento, com Amartya Sen, da abordagem das capacidades, que se apresenta como um ideal de organização da sociedade, por forma a providenciar aos seres humanos um pleno desenvolvimento e florescimento. Apesar de intimamente relacionadas no seu propósito prático e transformador, estas duas visões de felicidade humana e dos meios para a alcançar divergem radicalmente, podendo até mesmo considerar-se contraditórias. Se na perspectiva da felicidade proposta pelas escolas helenistas a eudaimonia é uma tarefa individual, alheia a e independente de qualquer florescimento social ou coletivo, para a abordagem das capacidades o florescimento social ou coletivo é a verdadeira condição de possibilidade de qualquer florescimento individual. Neste ensaio discutiremos ambas as abordagens e procuraremos mostrar como estas não só são conciliáveis como se encontram mesmo estreitamente relacionadas no pensamento de Nussbaum, constituindo duas abordagens diferentes, mas complementares ao problema do florescimento humano e da procura filosófica da felicidade.

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Biografia do Autor

Marco Ferreira, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa

Marco Ferreira é médico (MD), licenciado pela Faculdade de Medicina de Lisboa (2000), e especialista em Anatomia Patológica desde 2008. É mestre em Gestão da Saúde (MSc), pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (2017), com a tese “O Erro em Anatomia Patológica: análise de 2884 exames histopatológicos do Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca EPE”. É mestre em Filosofia, área de especialização em Filosofia Política (MA), na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2024), com a tese “Abordagem da Capacidade, a Saúde e o Direito à Saúde”.

É atualmente Diretor do Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca. No mesmo hospital, exerceu os cargos de Diretor Clínico (2017-2020) e de Presidente do Conselho de Administração (2020-2022).

Desenvolve atividade docente como Assistente Convidado de Anatomia Patológica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa desde outubro de 2017. Foi Assistente Convidado de Anatomia Patológica na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (2009-2011) e Assistente Convidado de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (2003-2011).

Participou em mais de 50 cursos de formação, seminários e congressos e é autor ou coautor de 16 publicações científicas em revistas com revisão interpares e de 45 comunicações em congressos nacionais e internacionais, 4 das quais premiadas pelas Comissões Científicas. Participou como preletor convidado em 15 cursos, reuniões e congressos.

Marta Faustino, IFILNOVA / Universidade NOVA de Lisboa

Marta Faustino é investigadora contratada do IFILNOVA (Instituto de Filosofia da NOVA). Estudou Ciências da Comunicação (2002) e Filosofia (2005) na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e doutorou-se em Filosofia (2013), na mesma universidade, com a dissertação “Nietzsche e a Grande Saúde. Para uma Terapia da Terapia”. Desenvolve atualmente um projeto individual sobre a filosofia como modo de vida, com especial foco em Nietzsche, Hadot e Foucault. De 2018 a 2022 coordenou o Art of Living Research Group e lidera atualmente, como Investigadora Principal, o Projeto Exploratório da FCT “Mapping Philosophy as a Way of Life: An Ancient Model, A Contemporary Approach”. É membro do LNG (Lisbon Nietzsche Group), do GIRN (Groupe International de Recherches sur Nietzsche), do HyperNietzsche, da Red Iberoamericana Foucault e da Mellon Philosophy as a Way of Life Network. É autora de vários artigos e ensaios sobre Nietzsche, Hadot, Foucault e os filósofos helenistas e co-editora de Nietzsche e Pessoa: Ensaios (Tinta-da-china, 2016), Rostos do Si: Autobiografia, Confissão, Terapia (Vendaval, 2019), The Late Foucault: Ethical and Political Questions (Bloomsbury, 2020), Filosofia Como Modo de Vida: Ensaios Escolhidos (Edições 70, 2022) e Hadot and Foucault on Ancient Philosophy: Critical Assessments (Brill, 2024).

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Publicado

2026-01-12

Como Citar

Ferreira, M., & Faustino, M. (2026). Da eudaimonia individual ao florescimento social. Perspectivas sobre a felicidade na obra de Martha Nussbaum. Revista Archai, (35), e03528. https://doi.org/10.14195/1984-249X_35_28

Edição

Seção

Artigos