Para além da gestão: uma revisão crítica da governança do sobreturismo e o desafio chinês

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14195/0871-1623_53_11

Palavras-chave:

Sobreturismo, Governança do turismo, Gerencialismo, China, Governança espacial

Resumo

O sobreturismo tornou-se um conceito relevante nos estudos de turismo, mas a sua rápida difusão nem sempre se fez acompanhar do devido enquadramento teórico. Neste artigo sustenta-se que a pesquisa sobre governança do sobreturismo continua a ser amplamente moldada por uma lógica gerencialista que perspetiva o problema em termos de congestionamento, pressão dos visitantes e eficácia do destino. Embora essa abordagem tenha
produzido medidas importantes, como a limitação do número de visitantes, o sistemas de entrada com horário marcado, mecanismos de precificação, estratégias de dispersão e monitoramento de multidões, ela também restringiu o horizonte analítico do campo de estudo.
Adotando uma abordagem de revisão crítica, este artigo sintetiza uma seleção de bibliografia dedicada à governança do turismo, à justiça, ao decrescimento, resiliência, dependência de trajetória, plataformização, governança espacial e teoria relacional dos destinos. Na revisão identificam-se quatro limitações principais: enquadramentos tecnocráticos e lineares; atenção insuficiente ao poder e à economia política; fraco reconhecimento da relacionalidade socioecológica e transferibilidade limitada para além de contextos urbanos ocidentais.
O artigo indica ainda que a China apresenta um contexto teoricamente significativo para se repensar a governança do sobreturismo. Em sistemas turísticos liderados pelo Estado, moldados por prioridades desenvolvimentistas, hierarquia administrativa, sincronização dos feriados públicos, rápida provisão de infraestruturas e participação desigual dos stakeholders, o sobreturismo não pode ser compreendido apenas com base em pressupostos colaborativos e gerenciais. Por fim, propõe-se uma perspectiva configuracional e relacional de governança com ênfase na justiça, na dependência de trajetória, na desigualdade espacial, na interdependência socioecológica e nas condições estruturais, a partir das quais o excesso turístico se normaliza.

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Publicado

2026-07-24