Festas do Senhor
DOI:
https://doi.org/10.14195/2976-0232_3_2Palavras-chave:
Banquete, Comensalidade, Ética da Festa, Fenomenologia do Sagrado, Identidade Cultural, Memória ColetivaResumo
O presente artigo analisa a festividade como um fenómeno humano total, situando certas celebrações que constam do corpus bíblico como pontos de clivagem e ressignificação das práticas de comensalidade do Próximo Oriente Antigo e do mundo clássico. Partindo de uma análise comparada com as matrizes da Suméria, Mesopotâmia, Grécia e Roma — onde o banquete operava como reforço de hierarquias políticas ou expressão do prazer cívico —, este estudo demonstra como a narrativa bíblica operou uma transmutação ontológica: a conversão do ciclo biológico da natureza num calendário da memória histórica e ética.
Através de uma leitura fenomenológica das festividades judaicas e cristãs — desde a ruptura fundacional da Pessah e a concessão normativa de Shavuot, até aos dispositivos de purificação subjetiva do Yom Kippur e à resistência cultural de Hanukkah e Purim —, argumenta-se que a festa bíblica atua como um mecanismo de suspensão do tempo útil e de afirmação da alteridade. Nestes contextos, elementos como o vinho e o pão são analisados enquanto marcadores de fronteira simbólicos e vetores de uma ociosidade sagrada que subverte a lógica da produtividade. O artigo conclui que a identidade judaico-cristã se alicerça numa comensalidade ritualizada que propõe uma alternativa à atomização social, estabelecendo uma ética da alegria partilhada e uma gramática de esperança escatológica que permanece como um substrato crítico na cultura ocidental contemporânea.
