Cfp: Vol. 22 N.º 40 (2022) Media & Populismo (Fechada)

2021-05-14

O rótulo de “populista” é quase sempre utilizado para descrever um leque vasto de indivíduos, partidos e movimentos, da esquerda à direita, que estruturam a sua estratégia política em torno de uma concepção dualista e simplificadora da realidade. Conceito de múltiplas variações semânticas, a depender do contexto histórico e político em que é empregue, o populismo tem sido identificado como uma ideologia de baixa densidade, bastante sofisticada em termos de eficácia eleitoral, que considera – numa perspectiva maniqueísta – a sociedade dividida em dois grupos antagónicos: “o povo puro” e a “elite corrupta”, postulando a irrestrita soberania do povo. O populista assume estratégias de comunicação e retórica que valorizam a percepção da existência de um povo monolítico, cuja identidade estaria ameaçada pela ação de grupos inimigos. Nesse sentido, o populismo define-se como um discurso baseado em juízos simplistas e dicotomias fáceis, em que se diz ao povo o que ele espera ouvir, dividindo a sociedade entre bons e maus, para manter vivo o clima de polarização.

Na última década, temos assistido à emergência de governos populistas, em diversos países do mundo. Estes populistas ameaçam as regras da democracia liberal, especialmente dos direitos individuais, liberdade de expressão e de imprensa. São governos populistas de caráter autoritário, que têm vindo a instalar-se, muitas vezes, a partir da realização de eleições livres, seguidas da tentativa de alterações constitucionais que visam perpetuar os líderes no poder e condicionar direitos no campo das liberdades individuais e dos direitos humanos. Os populismos contemporâneos, ou neopopulismos, levam ao extremo e distorcem a noção de volonté générale du peuple, oferecendo uma visão adulterada desse valor democrático, para atacar, na esfera pública e por meio de uma retórica antidemocrática, instâncias de representação e mediação. Os alvos preferenciais têm sido os parlamentos e tribunais, as comunidades científicas, os movimentos sociais e humanitários e os media tradicionais.

Neste cenário, os media tradicionais e os novos media assumem uma centralidade evidente, tanto na criação das condições para a emergência do fenómeno populista, quanto na arquitetura tecnológica disponibilizada aos líderes populistas para comunicar diretamente com o “povo”. As  redes sociais (Twitter, Facebook, Instagram) e os aplicativos de mensagens instantâneas (Whatsapp, Telegram) permitem grande visibilidade na esfera pública a estes líderes ao  disseminar, sem filtros, teorias da conspiração e extremistas. Exemplos deste processo são a criação de perfis de utilizadores fantasmas e os “disparos” de informações falsas, descaracterizadas e ou modificadas, a partir do domínio de tecnologias de programação e da apropriação indevida de dados. A estratégia dos líderes populistas passa, ainda, por denunciar a “má informação” dos media tradicionais que se opõem às teses populistas, acusando-os de serem facciosos e fabricantes de notícias falsas. Não obstante serem permanentemente atacados pela retórica populista, os media tradicionais possuem uma relação direta com aquele fenómeno pois contribuiram, diretamente, nas últimas décadas para a normalização da retórica populista, ao dar visibilidade mediática às mensagens destes líderes. Este discurso jornalístico encorajou o conflito político e o crescente descrédito das instituições democráticas de que é exemplo a cobertura jornalística dos escândalos de corrupção.

A relevância e a centralidade das Ciências da Comunicação neste debate leva  a revista Media & Jornalismo a convidar investigadores/as a submeterem artigos que discutam e analisem os populismos contemporâneos. Textos em português, espanhol e inglês serão aceites a partir da abordagem dos múltiplos contextos geográficos e políticos do populismo, e da compreensão política e comunicacional deste complexo tema.

O número Media e Populismo está inserido nos Projetos de Investigação em curso “Liberdade de Expressão e de Imprensa – uma análise comparativa dos processos eleitorais em Portugal e Brasil
(OBCOM-USP/IPA/ICNOVA) e “Observatório do Populismo no Século XXI” (ICNOVA, Instituto de História Contemporânea/UNL, Programa de Pós-Graduação em Comunicação/Universidade de Brasília e Programa de Pós-Graduação em Comunicação/Universidade Federal de Mato Grosso).  

O número está vocacionado para a publicação de estudos que reflitam sobre um ou mais dos seguintes tópicos:

  1. Contextualização histórica dos populismos;
  2. Representação de líderes e movimentos populistas nos media tradicionais;
  3. Populismo e pandemia;
  4. Populismo, media digitais e campanhas eleitorais;
  5. Populismo, media e representações da política;
  6. Populismo e desinformação no contexto da pós-verdade;
  7. Estudos comparados entre populismos de direita e esquerda;
  8. Populismo, media e crise democrática;

A Revista Media & Jornalismo (RMJ) é uma revista científica de acesso aberto arbitrada por pares e opera num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será distribuído a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da temática desta edição da revista. Os artigos podem ser submetidos em Inglês, Espanhol ou Português.

Os manuscritos devem ser submetidos através do website da revista (https://impactum-journals.uc.pt/mj). Ao aceder à RMJ pela primeira vez, deve registar-se para poder submeter o seu artigo e acompanhá-lo ao longo do processo editorial. Consulte as Instruções para Autores Condições para Submissão e a Políticas editoriais da revista.

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