Religião, Discurso Médico-Psiquiátrico e Ordem Republicana no Brasil

O espiritismo na produção acadêmica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro

Autores

  • Artur Cesar Isaia Universidade Federal de Santa Catarina

DOI:

https://doi.org/10.14195/2183-8925_29_18

Resumo

Estudando o discurso católico sobre o espiritismo na primeira metade do século XX, deparamo-nos com um aliado muito importante da hierarquia católica na sua luta contra as práticas mediúnicas no Brasil: o discurso médico-psiquiátrico. Como referente discursivo, tanto em um caso como em outro, o espiritismo era remetido a um lugar monstruoso, escuro, anômico, aparentado com a loucura, a subversão, o crime. Como anti- realidade, o espiritismo afirmava o primado do que de pior havia na sociedade brasileira. Praticar o espiritismo era afirmar os valores dos segmentos sociais mais ínfimos, gravitar em torno da incultura. Em um momento em que a medicina-psiquiátrica brasileira aprofundava uma disposição intervencionista sobre a realidade social, o espiritismo era representado como agente patológico dos mais graves, capaz de justificar a intervenção médica e credenciá-la frente aos poderes públicos. A loucura aparecia como uma das conseqíiências mórbidas da promiscuidade entre vivos e mortos, propalada pelo espiritismo. Sobre um povo inculto, doente, fraco, sugestionável, as práticas mediúnicas são pintadas, no discurso médico da época, como catalisadoras de desajustes mentais, tornando improdutiva uma larga parcela da população. Desta maneira, em nome da higienização da sociedade e dos interesses nacionais, os quais os médicos passam a arvorar-se um dos mais abalizados porta-vozes, a medicina-psiquiátrica decretava uma interdição radical sobre o espiritismo. Intervenção e interdição sobre o espiritismo, por outro lado, soavam como medidas totalmente familiares para uma igreja que ainda teimava em desdenhar da organização popular, persistindo no elogio ao predomínio das elites, que se diziam católicas. Portanto, na economia das forças em jogo na primeira metade do século XX, estamos frente a dois aliados (médicos e padres), detentores de uma acumulação simbólica não desprezível e unidos contra o espiritismo. Em trabalhos anteriores, privilegiamos o estudo do discurso católico sobre as práticas mediúnicas, abordando a riqueza imagética com que construiu o espiritismo, em um momento em que ainda a igreja possuía uma posição cômoda frente ao campo religioso e entre os atores políticos. Neste trabalho, vamos nos ater ao outro parceiro, o discurso médico-psiquiátrico, capaz de habitar a mesma lógica da exclusão da diferença e da denegação da realidade sócio-cultural brasileira.

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Publicado

2008-06-28