O Delfim: a prodigiosa agonia de um mito
DOI:
https://doi.org/10.14195/2183-847X_15_3Palavras-chave:
neorrealismo, nouveau roman, engajamento, fragmentação, excursãoResumo
O Delfim de José Cardoso Pires exibe a árdua tarefa de escrever sob censura. As estratégias utilizadas são, no nível do enunciado, a "clandestinização do narrado", como bem definiu Maria Lucia Lepeki em seu primoroso trabalho ensaístico de 1977, em que ela observa o deslocamento que a narrativa opera ao encobrir o gérmen do processo revolucionário “ que é a tomada da Lagoa pelo povo da Gafeira com a queda do poder dos Palma Bravo “ através de uma aparente tessitura de romance policial que, afinal, não cumpre seus supostos objetivos. Contudo, para além da agonia desse mito do poder, o romance intui a necessidade da agonia de um outro mito, desta vez estrutural, e relacionado, já agora, ao processo de enunciação. Como se José Cardoso Pires, na charneira entre a proposta neorrealista e o advento do nouveau roman, intuísse a necessidade de caminhar na contramão do mito do escritor que guia o seu leitor, cuidando para que ele não se perca, de modo a se tornar, supostamente, um agente eficaz da revolução. Ora, O Delfim, ao contrário, desafia o leitor, fragmenta o discurso, impede que o texto se ofereça abertamente à leitura, multiplica as versões, enfim, exige o esforço o "olho vivo" diante da crise do romance. Sem qualquer vislumbre de pedagogia, mas sem abdicar da História.
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