The Ghost in the Machine: ludologia, narratologia e reinvenção da personagem na ficção interativa

  • Paulo Silva Pereira Universidade de Coimbra
Palavras-chave: personagem, ficção interativa, narratologia, ludologia

Resumo

A Ficção Interativa é uma forma de experiência digital que confere ao jogador/interator poder de agenciamento (agency) por meio das suas decisões, com consequências diretas sobre a configuração narrativa da obra. Esta forma de medialidade veio trazer novos desafios e subverter noções tradicionais de representação narrativa (moldadas sobretudo a partir do campo da ficção impressa), na medida em que a estrutura não-linear abre caminho a percursos diferentes de ação, dependendo do desempenho e das escolhas do interator. Neste contexto, compreende-se que a natureza confi gurável da personagem, quer como entidade ficcional com determinadas propriedades diegéticas, quer como peça fundamental da mecânica do jogo, constitua objeto de crescente atenção por parte da comunidade académica e dos agentes envolvidos no desenvolvimento de videojogos e de Ficção Interativa. O processo de construção da personagem, independentemente do seu estatuto específico (PC: personagem jogável; NPC: personagem não-jogável), assume aqui uma especificidade própria e levanta problemas que habitualmente não surgem com outros produtos literários e culturais, mesmo do contexto contemporâneo. Mais do que prolongar o aceso debate em torno do grau de adequação deste meio para narrar histórias que levou à formação de duas abordagens teóricas distintas – a ludológica e a narratológica –, importa desenvolver um método holístico capaz de congregar diversos ângulos de análise, reconhecendo que os videojogos tendem a desenvolver modelos narrativos complexos, mas que não podem subsistir sem uma estrutura consistente e um sistema de regras. De modo particular, os projetos recentes de Ficção Interativa com recurso a dispositivos de Inteligência Artificial que permitem selecionar, com base em procedimentos computacionais, eventos de modo coerente segundo o tipo de intervenção do interator e tirar o máximo partido da tensão narrativa levantam novas questões no que respeita à ontologia da personagem, ao seu potencial de manifestação de efeitos estéticos e à sua capacidade de gerar envolvimento emocional.

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Publicado
2020-09-28