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v. 7 n. 1 (2019): Redes da Poesia Experimental: Circulações Materiais

As neovanguardas da década de 1950 experimentaram pela primeira vez com a produção de artefactos artístico-poéticos que transcenderam e desafiaram as definições e limites da literatura e das artes visuais. A poesia concreta tornou-se um movimento internacional que trabalhava com a herança da escrita experimental de ícones como Mallarmé, Joyce e Cummings, integrando práticas visuais e materiais na própria poesia. Durante as décadas de 1970 e 1980, a poesia experimental evoluiu enquanto prática internacional altamente colaborativa, integrando desde formatos visuais e sonoros até à instalação e à performance. A receção dessas práticas poéticas radicais oscilava também entre literatura e arte visual: poemas em formatos experimentais surgem frequentemente em revistas ou são apresentados em galerias como obras de arte, performances ou happenings.

De forma significativa, a poesia experimental proliferava em climas políticos adversos e procurava conexões à escala global. O fosso entre modernização tecnológica e desigualdade social era uma expressão visível dessas contradições, especialmente na América Latina. As sociedades eram invadidas por produtos industriais aos quais somente uma pequena parte da população tinha acesso. A rádio, a televisão e os meios impressos a cores incrementavam a circulação de informação embora os regimes repressivos em muitos países latino-americanos, na Península Ibérica e na Europa Oriental praticassem uma censura apertada. As práticas experimentais tornaram-se também uma corrente forte nos países democráticos da Europa Ocidental, como por exemplo em Itália, França e Países Baixos, onde o uso de materiais novos e o intercâmbio com colegas internacionais se tornou central.

Durante esses anos, a poesia experimental coincidiu em grande parte com a arte postal e até estabeleceu os primeiros círculos de arte postal na América Latina. O entrosamento da poesia com os seus materiais e meios tecnológicos tornou-se uma característica essencial. A fotocopiadora, por exemplo, tornou-se um meio tecnológico importante nas práticas poéticas experimentais. A partir de meados da década de 1990, a poesia experimental passou progressivamente a explorar as possibilidades do digital. Todavia, ainda hoje encontramos práticas analógicas que intervêm sobre o material físico, de que são exemplo Manual da Pedra (2013), de Carlito Azevedo, ou Rodapé Literário (2013), de Daniel Monteiro.

Pauline Bachmann (Universidade de Zurique)
Jasmin Wrobel (Universidade Livre de Berlim)

Publicado: 2019-11-17

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MATLIT: Materialidades da Literatura é uma revista em linha, arbitrada por pares e em acesso aberto, publicada pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pelo Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. A revista aborda as mediações tecnológicas e materiais das práticas literárias, focando em particular a graficalidade, a digitalidade, a auralidade e a intermedialidade. O seu campo de investigação vai dos estudos literários aos estudos comparados dos média e às humanidades digitais. MATLIT usa como línguas de trabalho o português, o inglês e o espanhol. Adotando uma perspetiva interdisciplinar e transmedial, a revista organiza-se em números temáticos. Para cada número é produzida uma Call for Papers.