No cruzamento das vanguardas históricas com as mudanças nas tecnologias de comunicação, a literatura abriu-se às materialidades do som, da voz e da performance, num processo que a mediação e reprodução técnica não deixou de acelerar e dramatizar, até à revolução digital (e à especificidade histórica e tecnológica da situação pós-digital). Este processo sofreu ainda a sobreposição do fenómeno da massificação, operando em grande medida num cenário de «re-oralização», embora já nos termos históricos de uma «oralidade secundária». Dos ambientes mais vanguardistas aos mais massificados, da Poesia Sonora à Spoken Word ou à Slam Poetry, sem esquecer esse vasto território intermédio ocupado pelas «leituras (ou récitas) de poesia», a consciência de que o planeta da literatura abarca também essas dimensões é hoje crescente: poesia fonética, poesia sonora, gravação de textos literários (pelos seus próprios autores ou por outros leitores), musicalização de poemas (sobretudo nos casos em que a voz não chega ao canto e se sabota a forma canção), leituras ao vivo, spoken word, slam poetry, rap

O volume 5 de MATLIT explora, pois, aquilo a que chamamos a literatura enquanto VOX MEDIA: a voz enquanto meio da literatura e as perturbações que o meio sofre pelo efeito combinado da performance e das tecnologias de mediação, representação e reprodução, sem esquecer a tensão entre corpo e tecnologia, entre a audibilidade/inaudibilidade do texto, entre o som e o sentido, entre a presença física ou a ausência do autor, etc. A intenção é, não apenas, a de produzir o catálogo e compêndio dos efeitos contemporâneos da VOX MEDIA sobre a noção de literatura, mas a de produzir uma arqueologia da VOX MEDIA e de todos os fenómenos recalcados pela sua invisibilidade histórica.

Osvaldo Manuel Silvestre (CLP, Universidade de Coimbra)
Felipe Cussen (IEA, Universidade de Santiago do Chile)

Publicado: 2018-01-30