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Convite à apresentação de artigos para o n.º 8, 3.ª série, de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

2020-10-28

Incertezas 

Incertezas de todo o género encontram-se gravadas, a tons fortes, nos modos de vida contemporâneos. O carácter fragmentário da informação e da comunicação institui uma rede de ambiguidades, povoada por sombras sem contornos definidos. Fenómenos geográficos, ambientais e biológicos, cujo lastro afinal não tinha sido previsto até às suas efetivas consequências, dizimam repentinamente paisagens e populações. Cada vez mais a investigação científica se balanceia entre plano nomotético e plano idiotético, numa deriva pelo ideográfico, pelo ipsativo e pelo idioletal. Em suma, o catálogo renunciou definitivamente a aspirações enciclopédicas e deterministas em nome do rigor do conhecimento, ou seja, assumindo tudo aquilo que a mente humana não tem condições — ou não terá mesmo capacidade — para convocar.

            Não é só a aceleração do tempo e o correlativo excesso de contemporaneidade, que envolvem o mundo atual, a instigarem incertezas. Da noite para o dia, novas teorias científicas põem a descoberto falhas que afetavam edifícios conceptuais até então considerados inquestionáveis. Aliás, a falta de certezas é um dos problemas que mais afeta o trabalho do estudioso que lida com o pretérito. A sua investigação desenvolve-se a partir de sinais de um passado — fósseis, estratos linguísticos, documentos de arquivo, textos literários, obras de arte — que não podem escapar a uma condição de fragmentariedade e incompletude. O mesmo círculo hermenêutico que transporta o investigador até esse passado, vincula-o irremediavelmente a outros níveis de integração dinâmica, sujeitos a saltos, lapsos e irregularidades. Deduções, conexões e hipóteses não podem escapar ao grau de contingência de qualquer reconstrução.

            A história das ideias e a antropologia mostram como, ao longo de milénios, a humanidade tende a ter como certo o que é capaz de dominar, remetendo tudo aquilo que escapa ao seu entendimento e ao seu controle para o domínio do supra-humano. Esse poder superior era, para os gregos, o destino, aquele destino que a tragédia trazia para a boca de cena em momentos cívicos que fundamentavam a coesão da polis — e que a simbolizam. Em contrapartida, o epicurismo atomista propunha-se emancipar o humano de uma matéria compacta e oprimente, nela inscrevendo a fluidez volúvel, mas libertadora, dos átomos. Assim anteviu Lucrécio a teoria do vácuo, a decomposição da luz ou o que viria a ser a microbiologia.

            A todas estas questões subjaz de facto uma outra, de índole gnosiológica, que envolve a relação de um sujeito com um objeto. Entre a possibilidade de que a natureza, bem como qualquer outro campo de observação, espelhe os limites do conhecimento humano ou, alternativamente, encerre uma lei a ser descoberta, as incertezas permanecem. Na senda da termodinâmica e da teoria quântica, vários outros domínios de pesquisa têm optado pela formulação de leis mais gerais, quando não pela previsão de margens de oscilação. Assim acontece com plataformas informáticas, programadas para cálculos por aproximação, com as fronteiras de vulnerabilidade exploradas pelas ciências sociais e humanas ou com a previsão de riscos económicos, todas elas áreas em expansão, e que atualmente propendem a lidar com ciclos e tendências.

            Nessa medida, a integração das incertezas faz-se garantia do acerto dos resultados de pesquisa, e a sua exclusão fragilizá-los-ia. Oscilações e incertezas que se colocam à humanidade redundam então em forma de testar possibilidades, de encarar novos desafios, de fortalecer o sentido cívico e de motivar a abertura à criatividade. 

 

O próximo número da revista Biblos, o n.º 8 da 3.ª série, será dedicado ao tema Incertezas, a ser abordado à luz de diversas perspetivas disciplinares, no âmbito de várias temporalidades históricas.

 

Até 30 de setembro de 2021, a Direção de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra receberá artigos sobre esse tema, através da plataforma Open Journal Systems (http://impactum-journals.uc.pt/biblos/login).

Todos os artigos devem seguir as normas redatoriais da revista (Normas para autores http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/normas_autores/index) e serão submetidos à arbitragem científica de uma comissão formada por especialistas.

A atividade editorial da revista segue o Código de ética. Guia de boas práticas para editores de revistas da Universidade de Coimbra (Políticas editoriais http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/politicas_editoriais/index). 

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Publicado: 2020-09-04

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