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Convite à apresentação de artigos para o n.º 7, 3.ª série, de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

2020-02-03

Dissidências

A dissidência compreende um largo espectro de atitudes, opiniões e comportamentos, vinculado a um desacordo de ordem conceptual, emocional ou de desempenho, relativamente a uma norma estabelecida. Os confrontos e os conflitos que dela decorrem propulsionam uma dinâmica que é tão instigante, pela acuidade das questões colocadas, como complexa, pela pluralidade dialética dos fatores envolvidos.

Já os antigos pensadores gregos sublinhavam o papel desempenhado pelas dissidências como sustentáculo da causa pública, reconhecendo na liberdade de debate a força da cidadania. A própria investigação, levada a cabo no domínio das ciências físicas e da natureza, se processa por entre um sistema de oposições não só de matriz conceptual e especulativa, mas também de ordem empírica, vinculado à diversidade de resultados experimentais inerentes à complexidade e à não linearidade do objeto de estudo. No campo da arte, uma ficcionalidade construída a partir de constelações dotadas de uma lógica alternativa plasma o atrito ou o choque entre a normatividade clássica e a sua contestação, entre cultura e contracultura, entre ortonímia e heteronímia. Também para a pedagogia, a publicidade ou, de um modo mais geral, para a comunicação, as dissidências se mostram tão apelativas que se erigem em elemento pragmático determinante. Por sua vez, é crescente, hoje em dia, a atração despertada por rotas turísticas diferenciais, que recusam caminhos já batidos, contrapondo-lhes quer a exploração do mundo selvagem e de culturas recônditas, quer a fruição de espaços exclusivos nelas mesmas recortados.

As formas através das quais a dissidência se manifesta vão do simples desapego até clivagens de tal modo profundas que levam à cisão. A crítica interna tem um eficaz valor estratégico quando dispõe de um espaço aberto ao diálogo e à coexistência judicativa de opostos que viabiliza a transformação. Diversamente, a ausência de condições para a criação de consensos catapulta a resistência, podendo forçar a exclusão, bem como a deserção. Nesse âmbito, o radicalismo perfila-se como consequência extrema da dissidência que renega o epifenómeno, por o considerar reducionista, centrando-se no combate ao sistema que o sustém. Desta feita, o conflito é afrontado nas suas raízes, com o objetivo de combater e erradicar o epifenómeno a partir dos seus fundamentos.

Em âmbito disciplinar, a dissidência infiltra o estrato epistemológico de todo o conhecimento, na diversidade das suas localizações. As descobertas científicas ou a história das religiões e dos movimentos religiosos, dos grupos ideológicos e das fações político-partidárias, das ideias literárias e dos movimentos sociais de libertação têm-se vindo a desenvolver, ao longo dos séculos, através de sucessivos confrontos e cisões. Na verdade, a dissidência é condição daquela alteração de perspetiva, de referência ou de paradigma, requerida pela inovação. A indagação do desconhecido germina no âmago da avaliação crítica do consenso, através do seu questionamento numa dimensão projetual.

A exposição da dissidência à esfera da pluralidade corre em paralelo com a sua vinculação à temporalidade, confluindo, nessa medida, com a ambivalência do carnavalesco e com as problemáticas que suscita. O desacordo crítico, por um lado, fragiliza o poder mas, por outro lado, o seu cariz efémero presta-se a reforçar a ordem pré-existente. Aliás, a instigação da dissidência e das suas bandeiras desde sempre foi terreno fértil para a reafirmação do constituído. A apropriação aparente ou abusiva de polos dissidentes é uma das encenações mais eficazes da manipulação hegemónica.

Na era digital, a rede proporciona o debate alargado através de grupos de discussão que podem opinar sobre tudo e contrariar tudo, inclusive os discursos dominantes, numa troca de informação ao nível global. Contudo, o confronto ou a aproximação de opostos através do diálogo e a organização de formas de resistência transnacionais convivem com um imediatismo controlador da discórdia, no qual se infiltram a demagogia, o populismo e até programas de cooptação criminosa. A própria rede se inscreve numa clivagem silenciosa e submersa, a exclusão de quem a ela não tem acesso.

É aí que a interrogação acerca do como, do porquê e do onde mostra claramente o modo como as dissidências se podem elevar a sinal insigne das possibilidades do humano.

O próximo número da revista Biblos, o n.º 7 da 3.ª série, será dedicado ao tema Dissidências, a ser abordado à luz de diversas perspetivas disciplinares, no âmbito de várias temporalidades históricas.

Até 30 de setembro de 2020, a Direção de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra receberá artigos sobre esse tema, através da plataforma Open Journal Systems (http://impactum-journals.uc.pt/biblos/login).

Todos os artigos devem seguir as normas redatoriais da revista (Normas para autores http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/normas_autores/index) e serão submetidos à arbitragem científica de uma comissão formada por especialistas.

A atividade editorial da revista segue o Código de ética. Guia de boas práticas para editores de revistas da Universidade de Coimbra (Políticas editoriais http://www.uc.pt/fluc/investigacao/biblos/politicas_editoriais/index).

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Número Actual

n. 5 (2019): Falsificações

Este 5.º número da 3.ª série, de Biblos. Revista da Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra, reúne um conjunto de contributos dedicado ao tema falsificações.
Substituição de um conteúdo ou de um objeto originais por uma réplica,
a falsificação é uma prática de raízes ancestrais. Contudo, as questões que suscita
têm vindo a ganhar particular acuidade, nos nossos dias, ao serem plasmadas pela
dialética entre uma falsa autenticidade e uma autenticidade falsa, deliberadamente
programada e promovida.
Os artigos que neste número são reunidos cruzam âmbitos disciplinares
que vão da economia aos estudos musicais, ao jornalismo, à moda, à investigação
acerca de obras de arte, à literatura, à história moderna e contemporânea ou à
arqueologia, num profícuo diálogo entre tempos, lugares e culturas.

Publicado: 2019-10-17

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